Há muitos anos, um velho sábio do jogo, de seu nome Arrigo Sacchi, resumiu-o assim:
“O futebol é a coisa mais importante dentre as coisas menos importantes.”
O corpo colectivo da nossa nação — homens saudáveis escolhidos a dedo, munidos das mesmas vestes e carregados com as esperanças de todos — foi capturado e tornado refém por um mito individual.
É difícil identificar com precisão quando e como aconteceu, como se a realidade tivesse sido sempre assim, tão natural como a primavera ou o cheiro de maresia. Creio que, antes de o mito se materializar, o homem, ainda livre do seu fado, falou baixinho, quase em surdina, não com palavras, mas com as suas acções.
Exilou-se, competitivamente, em terras distantes — de caminhos antigos de seda e novos de crude — e fez delas a capital do seu novo reino. Tentou, à sua maneira, fazer o luto das proezas já vividas, tornadas maiores do que a sua identidade humana, e maiores do que o destino comum a todos os homens.
Portugal não quis admitir a essência do seu novo mito: só se completará quando o homem sair de cena.
Infelizmente, não o deixámos partir. E lá seguiu ele, enganado. E nós, iludidos.
Devia ter sido ao contrário. Uma seleção é o lugar onde um país se revê a si próprio em imensos rostos. Disse Hobsbawm que milhões de pessoas parecem mais reais quando se resumem a uma equipa de onze com nome, e foi assim que a nação aprendeu a imaginar-se. No entanto, este espelho tem dono. As manchetes têm um só sujeito, as perguntas dirigem-se sempre sobre a mesma figura, e o jogo organiza-se à volta da ideia sobre um homem que já não existe mais em vez de um conjunto que sempre existiu.
Há algo de profundamente errado na nossa relação com os heróis da pátria. E o homem por detrás do mito talvez seja mais vítima do que criminoso. Ignorando a pessoa e todas as suas intrincâncias, resta-nos o seu legado enquanto mito: o vulto maior de um país recatado e encostado, ameno e simpático nas suas gentes, inofensivo para o resto do mundo.
Esta doença, este sôfrego que se abate sobre a nossa nação, não é culpa dele. É nossa metastizada numa sociedade irremediavelmente desesperada por histórias maiores do que as suas.
E a pergunta que fica por responder é esta: porquê tanta bajulação e subserviência mascarada de gratidão, de um único jogador de futebol tão longe do seu auge, a quem nunca permitimos ser menos do que foi?
Quem cresceu a vê-lo, cresceu com ele: é o relógio de gerações, e aceitar que acabou a pilha é aceitar a hora que também nos pertence. Como enunciou Durkheim, ao venerar o totem, o clã venera-se a si próprio; o nosso totem veste a camisola, e o clã é um país pequeno que precisa de um gigante para se manter relevante.
Diz que a gratidão é legítima, e talvez seja, mesmo conspurcada pela personalidade, mas a camisola não é um contrato vitalício. Diz que ainda acrescenta, e talvez acrescente, de formas e feitios diferentes de outrora, mas o que me interessa é por que razão a questão nunca pôde ser feita. Diz que é negócio: o interesse explica quem lucra, não por que ninguém discorda. Diz que é amor, e concordo, só que o amor deixa de o ser quando a pessoa amada não pode envelhecer à nossa frente.
Admito o risco da petulância, pois alguns também precisam de uma história para contar: a do declínio.
Mais que tudo, creio que este homem português, um génio da sua geração, tornou-se numa personalidade de culto, fruto do seu trabalho e das suas proezas. Já não é apenas um atleta há muitos anos. É um mito funcional de uma nação inteira. Um mito em colapso que os seus crentes — e receio que ele próprio — se recusam a deixar partir.
Ou será que ele — agora como marca, como grito que se tornou hino, como número — se tornou mais real do que a própria pessoa? A imagem, alimentada pela nossa curta memória coletiva e seletiva, precede e excede a realidade crua daquilo que fora um dia, e que já nunca mais voltará.
E o que significa isto para nós, enquanto nação? Talvez seja um regresso tímido, mas crónico, de uma fome antiga e amouca por figuras messiânicas e impérios perdidos, como Pessoa preconizou. Aquele rei que seguiu para terras distantes, nunca morreu e há-de voltar ressoa, ainda de maneiras surpreendentes, no nosso imaginário colectivo.
Não repetiremos a História: deixemos o novo rei partir.

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