• Se as palavras fossem silenciosas, ainda assim as ouviríamos?

    É curioso, não é?

    O que impele alguém a escrever, como se falar para o vazio pudesse, um dia, provocar eco. Exasperação. Não um aplauso, certamente que não — isso seria demasiado grandioso — mas simplesmente o reconhecimento de que outra voz, outro pensamento, parou por um instante, entre um deslizar distraído e um qualquer suspiro, para atentar.

    Este sítio não é um farol! É um fósforo aclarado num quarto que ainda não mergulhou, por completo, na obscuridade.

    O que aqui descobrirá — se tiver a paciência e a coragem de permanecer — é o lento desenrolar de pensamentos: reflexões sociais que não posam com imparcialidade, porque, no fundo, o que é a objetividade senão uma máscara que usamos para esconder a ferida?

    Encontrará também críticas literárias — não daquelas que se medem em estrelas, notas ou resumos apressados — mas daquelas que se aproximam devagar e murmuram: este livro inquietou-me, este fez-me lembrar um nome esquecido, este mentiu com elegância…

    E, quando tiver coragem bastante, talvez se depare com palavras minhas: ficções, memórias, ou devaneios — oferecidos como frutos ainda verdes, não maduros, mas irremediavelmente meus.

    Escrevo, não por acreditar que o mundo precise de mais palavras, mas porque preciso de lhes dar um lugar — e o fundo da mente é um triste fado. E se, por acaso, chegarem até si, uma palavra após a outra, sentarem-se ao seu lado por breves instantes, então o gesto terá valido a pena.

    Seja bem-vindo.

    — Adão Moreira Loureiro

  • Funeral

    Transcrição integral do ficheiro de áudio: REC-422_SOL_HELIOS_II [Classificado]
    Fonte: Unidade de registo de comunicações da cápsula EVA-07
    Orador identificado: Operador AEV, Carlos Tavares
    Data estimada: [DATA INDETERMINADA]


    Isto está a funcionar? Tem a luz verde acesa, parece que sim.

    Bem, fica gravada a minha lamentação para quem abrir este caixão. Tenho uma sensação estranha de já ter dito isto antes, com estas mesmas palavras, mas não sei dizer quando, nem quantas vezes. Estou bastante cansado de gritar pelo comunicador, mas tenho de aproveitar este momento de lucidez.

    Quem eu sou não importa agora, basta olhar para a minha etiqueta ou procurar nos registos da estação. Eu tratava dos painéis solares no exterior, quando o cabo que me prendia à estação se soltou da estrutura e fui atirado com velocidade para um dos cantos. No retorno, a ponta danificada estilhaçou o capacete e tive fuga de oxigénio enquanto tapava o buraco com fita. Depois disso, fiquei ali a navegar às voltas, sozinho no vazio, à espera que alguém me acudisse.

    Eu sabia que trabalhar como operador extra-veicular não era um trabalho seguro, embora pudesse ver o espaço com os meus próprios olhos, e foi isso que me atraiu para o ofício. No entanto, sei que fui o escolhido não pela vontade, mas porque eu não tinha ninguém à espera lá em baixo nem uma casa com luz acesa sobre um jardim à minha conta. Não tinha nada, e foi por não ter nada que me tornei no candidato ideal, mas perfeitamente dispensável. Lembro-me, na minha mente, da cara enrugada de alguém dos recursos humanos, mas não me lembro da voz dela, só de uma boca muda a mexer-se, para cima e para baixo.

    O caixão onde estou é pequeno, e não tenho muito espaço de manobra. Cheira a plástico reciclado e a qualquer coisa química, meio adocicada, e às vezes um breve odor trespassa, a metal quente, o mesmo cheiro das minhas luvas de trabalho no final de cada missão. Como entretenimento nestas horas, tenho o panorama do visor, do qual apenas vejo o Sol, e a minha mente.

    A minha memória de ter chegado a este caixão é traiçoeira. Lembro-me de ser carregado por dois homens que mal conhecia de nome; acho que um deles disse qualquer coisa que não percebi no fim, talvez tenha dito boa sorte ou adeus. Tenho quase a certeza de que foram dois, embora por vezes pareçam mais, muitos mais, e estou rodeado por eles, também eles mudos, mas que falam para mim com caras tristes e estarrecidas. Por vezes penso um pouco melhor e tento revisitar a memória, só que à milésima vez que reconto, sai-me uma terceira pessoa, uma mulher, completamente nova e desconhecida, mas o mais estranho não é a terceira mulher: é que, por um segundo, a conta de três parece-me tão certa como a conta de dois pareceu antes — mil vezes antes.

    Tenho, também, uma vaga memória ou sonho recorrente de ter visto algo que não devia ter visto, algo tão incrivelmente estranho que a minha mente não consegue dar sentido a isso, apesar de me esforçar muito sempre que estou acordado. É como se aquilo que, de alguma forma, deveria ser de uma maneira na vida, não fosse realmente isso, mas sim outra forma, mais estranha, algo que sou incapaz de compreender, mas apenas de sentir.

    A viagem vai durar séculos, e eu irei acompanhá-la na totalidade. Após estes tempos de lucidez, a câmara interior enche-se subitamente de um líquido viscoso e branco que me afoga e me imobiliza, e acabo por esmorecer, e é como se falecesse, vezes sem conta.

    A ordem das coisas já não me parece tão certa como parecia, e não sei bem há quanto tempo estou aqui. Certamente se passaram muitos anos, pois tenho imensas memórias parecidas – de acordar engasgado com o líquido, de memórias que revisitam memórias, mas tenho, como único ponto de referência, apenas a estrela solar.

    Notei que o Sol tem crescido cada vez mais e está quase a extravasar os limites do pequeno retângulo do visor. Como não tenho mais nada por fazer, fico a olhar para ele por muito tempo, mais tempo do que devia, e às vezes, quando pisco os olhos, ele já cresceu mais um pouco, não muito, apenas o suficiente para eu duvidar se foi a luz a mudar ou se fui eu que dormi sem dar por isso, e se dormi, quanto tempo, e quantas vezes já dormi e acordei sem saber, a repetir isto tudo outra vez.

    Já quase me esquecia: a cápsula tem uma voz. Ela diz sempre a mesma coisa, com o mesmo tom: morre, seu monstro. Às vezes não sei se é a máquina a falar ou se sou eu a imaginar a máquina a falar, porque a voz dela começa a soar-me cada vez mais parecida com a minha. Já tentei falar com ela de outras coisas, por exemplo, como é a receita do doce da minha terra, ou se há novidades do planeta. Tentei de tudo e mais alguma coisa. Ela nunca me responde, apenas me diz para morrer. Da próxima vez, vou tentar enganá-la com conversa fiada e dizer-lhe, a ameaçar, que a consigo desligar. Pode ser que ela me responda, desta vez.

    Começo a sentir os olhos pesados e o corpo húmido. O vidro do visor está embaciado com a minha respiração, um círculo pequeno que aparece e desaparece, aparece e desaparece, cada vez mais devagar, e há uma pequena parte de mim, que já não tem a certeza se sou eu a respirar ou se é só o registo antigo desta mesma gravação, outra vez, sempre outra vez, à espera de alguém que nunca vai chegar a tempo de me dizer que já chega.

    versão atualizada a 24-08-2026

  • Irmandade dos Pecadores


    Não sou um santo.

    Nunca ninguém foi e será, nem aqueles que foram santificados. Somos todos irmãos e irmãs nas nossas fraquezas, iguais na nossa versão mais fraca de humanidade. Se acham que não, pensem mais um pouco. Mas talvez, entre tantas máscaras que por aí se usam e se escondem, gaste muito mais esforço do que a maioria ao tentar não usar nenhuma — isso é mais raro do que a própria virtude. Apesar de tudo, alimento em mim falhas, vícios e fragilidades tais que em certos dias simplesmente não luto, por rendição e por cansaço. Há algo de intrinsecamente humano no fracasso — um espelho rachado e sujo que, ainda assim, reflete com mais verdade do que qualquer ideal polido alguma vez conseguiria.

    Também não sou um demónio. Nem sou um espectro à espreita da vulnerabilidade alheia. Mas reconheço-os muito bem, deambulando por aí, esses abutres da sociedade mascarados de humanos. Aqueles que sorriem com o corpo e escondem lâminas na alma, que se untam de moralidade aos domingos e negoceiam princípios à segunda, e que pregam o bem de olhos postos no proveito. Vivemos entre pecadores que julgam outros pecadores por pecarem de forma diferente. Há nisso uma ironia crua, quase cega, que nos atravessa a todos. Eu, gosto de pensar, desisti de disfarçar a toda a hora. E sendo verdade ou não, pago esse preço, com usura popular.

    É algo que sempre me incomodou: os que rezam em voz alta e condenam em silêncio. A nossa espécie símia carrega terços e sentenças no mesmo bolso e fala do perdão como propriedade privada, um dom que se transmite por superioridade moral, como se isso fosse possível, como se alguém tivesse esse direito. Eu acredito que não. Quando eu erro, não me disfarço de modelo arrependido, e quando julgo, começo sempre por mim. Sou o meu próprio juiz, júri e carrasco. Nem sempre justo e nem sempre o meu melhor amigo — quase nunca, para ser franco.

    Mas sim, há santidades autoproclamadas que assustam mais do que qualquer pecador. Aquele que se gaba de nunca ter traído talvez nunca tenha amado até doer. Aquela que garante nunca ter mentido, mente agora, ao dizê-lo. O ser mais perigoso da nossa raça nunca foi o pecador assumido, mas sim o santo criado — o que se ajoelha diante dos outros e esfola os seus iguais nas sombras, na pressa de parecer puro. Porque ninguém é assim tão limpo sem esconder lama debaixo das unhas.

    E se, no fim, houver de facto um tribunal — divino, terreno, uma amálgama imperfeita de ambos, tanto faz para mim — espero que se pese isto na balança: deixei de mentir, para fora, sobre quem sou, ainda que, por vezes, continue a mentir para mim próprio. No retrovisor baço que levo comigo, a imagem que regressa é a minha — imperfeita, mas honesta. Mas quem sou eu, afinal? Ainda não sei, exatamente. Talvez continue a errar para descobrir. Tropecei e caí tantas vezes que cresci membros que amparam as quedas. Certamente errei feio, e voltarei a errar: por escolha, por fraqueza, por necessidade, sem distinguir a diferença.

    Pensa comigo: e se somos apenas versões suportáveis dos nossos próprios defeitos? Escondemos aqui e disfarçamos ali, aqueles defeitos e feitios feios, que mancham a nossa identidade, que tanto prezamos e mostramos para que não sejamos proscritos. Aprendemos a dissimular o que em nós pulsa fora do compasso coletivo, em parte por sobrevivência e parte por medo de sermos apedrejados, na praça ou no ecrã. Eu, por exemplo, aprendi a dizer “sim” quando já tinha desistido, a ser cordial quando a razão não acompanhava — e a sorrir quando sentia, lá no fundo, uma vontade primal de violência. Se me chamavam ponderado, era só porque eu disfarçava bem a tempestade.

    Talvez eu esteja profundamente errado e maluco das ideias. Talvez esta lucidez toda não seja mais do que exaustão num corpo jovem habitado por um espírito antigo, como se costuma dizer, embora eu ache a expressão um bocado gasta. Talvez esta exigência comigo mesmo seja apenas o espelho que enfrentei vezes demais, e que vezes demais me derrotou.

    No fundo, sou apenas um homem com uma régua torta, tentando medir um mundo desalinhado. Continuo a tentar, mesmo assim, nem sei bem porquê, ou talvez saiba e não queira dizer, a viver nesta irmandade dos pecadores.

    Editado a 15-08-2026