Categoria: INSUBMISSÕES

  • Irmandade dos Pecadores


    Não sou um santo.

    Nunca ninguém foi e será, nem aqueles que foram santificados. Somos todos irmãos e irmãs nas nossas fraquezas, iguais na nossa versão mais fraca de humanidade. Se acham que não, pensem mais um pouco. Mas talvez, entre tantas máscaras que por aí se usam e se escondem, gaste muito mais esforço do que a maioria ao tentar não usar nenhuma — isso é mais raro do que a própria virtude. Apesar de tudo, alimento em mim falhas, vícios e fragilidades tais que em certos dias simplesmente não luto, por rendição e por cansaço. Há algo de intrinsecamente humano no fracasso — um espelho rachado e sujo que, ainda assim, reflete com mais verdade do que qualquer ideal polido alguma vez conseguiria.

    Também não sou um demónio. Nem sou um espectro à espreita da vulnerabilidade alheia. Mas reconheço-os muito bem, deambulando por aí, esses abutres da sociedade mascarados de humanos. Aqueles que sorriem com o corpo e escondem lâminas na alma, que se untam de moralidade aos domingos e negoceiam princípios à segunda, e que pregam o bem de olhos postos no proveito. Vivemos entre pecadores que julgam outros pecadores por pecarem de forma diferente. Há nisso uma ironia crua, quase cega, que nos atravessa a todos. Eu, gosto de pensar, desisti de disfarçar a toda a hora. E sendo verdade ou não, pago esse preço, com usura popular.

    É algo que sempre me incomodou: os que rezam em voz alta e condenam em silêncio. A nossa espécie símia carrega terços e sentenças no mesmo bolso e fala do perdão como propriedade privada, um dom que se transmite por superioridade moral, como se isso fosse possível, como se alguém tivesse esse direito. Eu acredito que não. Quando eu erro, não me disfarço de modelo arrependido, e quando julgo, começo sempre por mim. Sou o meu próprio juiz, júri e carrasco. Nem sempre justo e nem sempre o meu melhor amigo — quase nunca, para ser franco.

    Mas sim, há santidades autoproclamadas que assustam mais do que qualquer pecador. Aquele que se gaba de nunca ter traído talvez nunca tenha amado até doer. Aquela que garante nunca ter mentido, mente agora, ao dizê-lo. O ser mais perigoso da nossa raça nunca foi o pecador assumido, mas sim o santo criado — o que se ajoelha diante dos outros e esfola os seus iguais nas sombras, na pressa de parecer puro. Porque ninguém é assim tão limpo sem esconder lama debaixo das unhas.

    E se, no fim, houver de facto um tribunal — divino, terreno, uma amálgama imperfeita de ambos, tanto faz para mim — espero que se pese isto na balança: deixei de mentir, para fora, sobre quem sou, ainda que, por vezes, continue a mentir para mim próprio. No retrovisor baço que levo comigo, a imagem que regressa é a minha — imperfeita, mas honesta. Mas quem sou eu, afinal? Ainda não sei, exatamente. Talvez continue a errar para descobrir. Tropecei e caí tantas vezes que cresci membros que amparam as quedas. Certamente errei feio, e voltarei a errar: por escolha, por fraqueza, por necessidade, sem distinguir a diferença.

    Pensa comigo: e se somos apenas versões suportáveis dos nossos próprios defeitos? Escondemos aqui e disfarçamos ali, aqueles defeitos e feitios feios, que mancham a nossa identidade, que tanto prezamos e mostramos para que não sejamos proscritos. Aprendemos a dissimular o que em nós pulsa fora do compasso coletivo, em parte por sobrevivência e parte por medo de sermos apedrejados, na praça ou no ecrã. Eu, por exemplo, aprendi a dizer “sim” quando já tinha desistido, a ser cordial quando a razão não acompanhava — e a sorrir quando sentia, lá no fundo, uma vontade primal de violência. Se me chamavam ponderado, era só porque eu disfarçava bem a tempestade.

    Talvez eu esteja profundamente errado e maluco das ideias. Talvez esta lucidez toda não seja mais do que exaustão num corpo jovem habitado por um espírito antigo, como se costuma dizer, embora eu ache a expressão um bocado gasta. Talvez esta exigência comigo mesmo seja apenas o espelho que enfrentei vezes demais, e que vezes demais me derrotou.

    No fundo, sou apenas um homem com uma régua torta, tentando medir um mundo desalinhado. Continuo a tentar, mesmo assim, nem sei bem porquê, ou talvez saiba e não queira dizer, a viver nesta irmandade dos pecadores.

    Editado a 15-08-2026