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  • Eclipse

    Há luz, e no momento seguinte, diante de todos, deixa de haver luz. As pessoas, perdidas na escuridão, gritam e batem palmas para afugentar o dragão, arremessam as suas lanças afiadas para o céu e, ocasionalmente, realizam um ritual sangrento a um deus com um nome estranho e um corpo ainda mais estranho. Depois a luz volta, como sempre aconteceu e acontecerá; com as lanças esquecidas no chão, os humanos continuam a achar que adiaram o fim do mundo.

    Até hoje, a humanidade não achou estranho o suficiente para perguntar o que acontece, lá em cima, e os poucos que perguntam, ficam satisfeitos com a resposta errada: ou foi um pecado, ou um azar.

    Antigamente não havia distância, nem eclipse. A Lua era só um braço interno da Terra, uma parte dela como o joelho é parte da perna, até que um forasteiro vindo de lugar incerto a partiu ao meio, num encontro que ninguém pediu e ninguém assistiu. O choque atirou parte do corpo para o vácuo, a esfriar longe do calor de onde tinha saído. Desde aí, passou a haver dois corpos onde dantes só havia espaço para um, e a Lua, agora adulta, afasta-se um pouco de cada vez, sem pressa ou escolha, como quem cresceu demasiado e já não cabe mais na casa onde nasceu.

    No entanto, o corpo nunca deixa de sentir o contorno daquilo que perdeu, e continua a procurá-lo. Mesmo longe, mesmo a direito no seu caminho, a Lua continua a puxar a água que ainda reconhece como também sua: os mares sobem e descem ao seu comando, uma maré que é só um braço a estender-se, todos os dias, na direcção de casa.

    Mas há noites e dias, raros e sempre demasiado breves, em que a Lua ou se atrasa no seu caminho habitual ou se aproxima um pouco mais do que devia. Por alguns momentos, intromete-se entre a Terra e o Sol, apagando a luz como se esse fosse o único direito que ainda lhe restava sobre o lugar de onde saiu. Nesse tempo, que se estica ou se encolhe dependendo do lugar, a sombra desce devagar e abate-se sobre o que ainda resta da claridade. Quando atinge a totalidade, há escuridão onde devia haver luz, e é nesse momento exacto em que a sombra deixa de ser sombra e passa a ser outra coisa: algo avassalador e inominável.

    Só na Terra é que há barulho nessa hora; é o único lugar onde o medo precisa de fazer alguma coisa, onde uma criança chora ou se esconde debaixo da cama, na esperança de que seja apenas um pesadelo. Em Marte, a sombra nunca chega a fechar-se de todo: passa depressa e deixa sempre um fio de luz. Noutros lugares do sistema, a sombra nem sequer encontra chão onde pousar: atravessa nuvens, gás e detritos que em nada se parecem com um rosto incrédulo a olhar para cima.

    Mas no planeta Terra há sempre alguém a acender uma fogueira para repor a luz, a bater com as mãos em alguma superfície oca para espantar o silêncio, a jurar o que for preciso jurar para que o céu volte a ser o que era antes de escurecer. E o céu iluminado volta sempre de qualquer maneira, só não sabem que não é o Sol que regressa, é a Lua que se vai embora outra vez, indiferente aos gritos e às fogueiras.

    Há sempre alguém mais paciente, de olhos postos no céu há anos, por gosto ou por fé, que perdeu o sono e as conversas por isso, a marcar em pedra ou em osso quando a escuridão prometeu voltar, convencido de que guarda o segredo do mundo; é só uma contagem. Lá em baixo, sabem só que o dia escureceu e que voltou a clarear, e apenas por algumas horas ou dias, ficam mais próximos uns dos outros, mais do que costumam ficar, sem saberem que assistiram a uma nova despedida.

    A humanidade também não sabe que haverá um adeus definitivo: a Lua afastar-se-á, como sempre fez desde o dia em que deixou de ser Terra, até que a sombra não chegue para cobrir tudo e a visita se torne breve de mais. Não vai ser anunciado; não há olhos, por mais pacientes, que vejam este a tempo. Só quando o dia for demasiado claro e a noite demasiado escura, para sempre, sem que nenhuma sombra venha cobrir um nem o outro, é que hão de perceber o que perderam.

    E a Lua vai continuar o seu caminho, cada vez mais longe e mais estranha ao lugar de onde veio, até já não se lembrar que alguma vez foi Terra.